
Ontem, dia da Misericórdia Divina, celebrávamos a unidade da Igreja, que constituía-se um só coração e uma só alma (cf. At 4,32). Ao mesmo tempo proclamávamos Jesus Cristo, morto e ressuscitado, provando a Tomé que havia de fato voltado à vida. Refletimos a misericórdia no contexto da fé e da união. Dizia o Senhor: "Felizes aqueles que crêem sem ter visto!" (Jo 20,29). É momento de pensar: Cremos em Deus como Tomé ou como os outros apóstolos? Cremos na Eucaristia, em Jesus Cristo, naquilo que Ele vem nos pregar através do Evangelho? Ao mesmo tempo, comemoramos a vitória de Cristo sobre a morte: Laetare Jerusalém! Assim como no Domingo Laetare da Quaresma, o domingo da Alegria, hoje cantamos, junto com Jesus Misericórdia: Laetare! E acrescentamos: "Jesus, eu confio em vós!"
Cantar essa misericórdia de Deus que nos faz mais vivos é, na liturgia de hoje, mais que uma formalidade, uma obrigação. Ele nos chama à plena conversão e mostra que só podemos ir ao céu se nascermos novamente (cf. Jo 3,3). Nesse sentido, os apóstolos de Cristo vivem, após sua ressurreição, um "Novo Pentecostes". Diz a primeira leitura: "Quando terminaram a oração, tremeu o lugar onde estavam reunidos. Todos, então, ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram corajosamente a palavra de Deus" (At 4,31). Essa graça de fazer tremer o lugar onde estavam reunidos demonstrava o fervor da oração que faziam os apóstolos naquela ocasião porque o Senhor estava com eles. Jesus prometeu: "Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles" (Mt 18,20).
Ora, então por que hoje não fazemos tremer os lugares onde oramos? Se Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre, por que não está acontecendo hoje em nossas vidas os prodígios de Pentecostes? (cf. Padre Léo, pr. Jovens Restaurados, 1999) Ora, o erro está em nós. Jesus prometeu que estaria conosco. Precisamos crer mais. Veja: eu disse "crer". Quando vamos à missa ou ao grupo de oração, a única coisa que fazemos é pedir. Esquecemos de exaltar a Deus; buscamos somente a nossa alegria. A religião visa o teocentrismo, e não o antropocentrismo. Quem está no centro de tudo é Deus e não nós. João Batista dizia: "Importa que ele cresça e eu diminua" (Jo 3,30).
A nossa oração deve ser justamente isso: prestar mais atenção em Deus; fazer com que diminuamos, pois, só assim podemos fazer os nossos problemas também diminuírem. Dessa forma, com Deus em primeiro lugar, a graça aumenta. Veja: os meus problemas devem ser pequenos diante de Deus, para que sua graça seja maior. Mas, só sabemos pensar em nós. "Tremer o chão" significa que o pedido será atendido. Se não é atendido, ou seja, se não treme o chão, é porque não oramos direito, não pedimos o auxílio do Espírito Santo. E como os apóstolos oraram?
Eles oraram fazendo uma exaltação a Deus. Exaltá-lo não é puxar o saco d'Ele para que Ele nos atenda; é como expliquei: Deus tem que ser maior para que sejamos atendidos. Além disso, precisamos pedir com um fim único: a edificação. São Tiago dizia o seguinte: "Pedis e não recebeis porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões" (4,3). A nossa oração tem que ser em vista da edificação do Reino de Deus, e não da edificação da nossa própria vontade. A música Deus é maior, do Flavinho, lembra muito bem isso que falamos. Para Deus ser maior em nossa vida, no entanto, precisamos fazer com que o nosso problema seja menor que Ele. Oramos como se Deus não conseguisse nos ajudar.A Renovação Carismática Católica, assim como o Concílio Vaticano II, vieram fazer na Igreja essa renovação, esse "Novo Pentecostes". Dizia o servo João Paulo II, sobre o Vaticano II: "Na missão eclesial, aparecem hoje vários sinais de esperança, ligados intimamente com aquela abundante efusão do Espírito Santo (como se fosse um novo Pentecostes), que a Igreja experimentou na preparação, celebração e aplicação do Concílio Vaticano II" (J. Paulo II, Esperança na Igreja). Com essa grande efusão do Espírito Santo do Concílio, o que ele poderia gerar seria somente obra do Espírito Santo realmente. Nasceu a RCC, com essa missão de dar à oração esse aspecto mais teocêntrico, exaltando a Deus soberanamente e esquecendo-se de nós mesmos.Só que vemos, até na RCC, esse "esfriamento" em sua missão. O que vemos são grupos fracos, 'nocauteados' pelas brigas internas, pelos rancores e ódios de alguns membros e, principalmente, pela visão egocêntrica do homem. Vemos em alguns grupos algo do tipo: Senhor, cura minhas fraquezas! Senhor, dá-me forças! E só no final do grupo ouvimos um tão esperado "Obrigado Senhor!, por tudo o que tu fazes em nossa vida", ou uma exaltação a Deus. Isso precisa mudar. Se a RCC veio foi para trazer cada vez mais esse espírito teocêntrico às pessoas e à própria Igreja de Cristo, então, ela precisa pôr em prática hoje sua meta. Isso só será possível, lembrando o Evangelho, se nascermos de novo.Jesus diz que, para entrarmos no seu Reino, devemos renascer da água e do Espírito. Ora que isso quer dizer? Em primeiro lugar, Jesus quer falar do Batismo - a água - e, no sentido do Espírito, Ele quer que tenhamos uma vida renovada. Diz São Paulo na carta aos efésios: "Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma" (Ef 4,23). Então, primeiro, essa entrada no Reino de Deus exige o batismo. Cristo confirmou essa necessidade várias vezes no NT. Dizia: Quem crer e for batizado, será salvo. O batismo então é esse caminho, essa porta. Depois, precisamos do Espírito, da fé, da renovação. Isso exige de nós boas atitudes, fé, omissão ao pecado, renúncia, perdão, amor e tudo aquilo que fielmente cremos necessário para que alcancemos o Reino de Deus.Senhor, tu criaste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe. Por meio do Espírito Santo, disseste através do teu servo Davi, nosso pai: 'por que se enfureceram as nações, e os povos imaginaram coisas vãs? Os reis da terra se insurgem e os príncipes conspiram unidos contra o Senhor e contra o seu Messias'. Foi assim que aconteceu nesta cidade: Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se com os pagãos e os povos de Israel contra Jesus, teu santo servo, a quem ungiste, a fim de executarem tudo o que a tua mão e a tua vontade haviam predeterminado que sucedesse. Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem e concede que os teus servos anunciem corajosamente a tua palavra. Estende a mão para que se realizem curas, sinais e prodígios por meio do teu santo servo Jesus (At 4,24-30).
É tudo simples. As coisas de Deus são muito simples. Só que, por causa do fardo do pecado, complicamos o tudo e metemos os pés pelas mãos. Esse "renascer da água e do Espírito" é maravilhoso e é aquilo que muitos movimentos hoje, como a RCC, chamam de "batismo no Espírito Santo". É fato que a CNBB, em sua instrução aos grupos de oração, pediu que esse termo fosse omitido porque poderia causar confusão nos fiéis como um suposto "novo sacramento". Mas, ele nada mais é do que essa efusão. Diz Jesus nessa conversa com Nicodemos: "O vento sopra onde quer; (...) não sabes donde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito" (Jo 3,8). O que estou dizendo? Que a efusão do Espírito acontece quando estamos orando na assembléia em alta voz, orando em línguas? Não. Veja, o que dizia ainda a primeira leitura: "Quando terminaram a oração..." A ação do Espírito Santo acontece depois da oração porque enquanto estamos orando, a única coisa que podemos fazer é justamente orar. Só depois poderemos notar a diferença que aquela oração fez em nossa vida.
Graça e paz.
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